Domingo, Junho 11, 2006

Última entrada no PortugalDiário

Aquí vai um excerto da última entrada no PortugalDiário, que acompanhou diariamente o percurso. Obrigado ao PD e à Marta Ferreira!

Foram 419 quilómetros no total. 23 horas e 43 minutos a pedalar. Do Porto a Lisboa. Chegou, finalmente, ao fim o protesto de João Freire, o bolseiro que pegou na bicicleta e rumou à capital, contra os atrasos no pagamento da sua bolsa de investigação.

Cerca de 20 colegas, também bolseiros, aguardavam a sua chegada. Mas não o reconheceram quando a bicicleta deu a curva e parou à porta do Ministério da Agricultura, na Praça do Comércio, em Lisboa. A longa jornada deixou marcas como, por exemplo, a barba por fazer ou a tez bronzeada pelo sol.

Chega com um sorriso nos lábios mas garante que não tem «a sensação de dever cumprido».

«Só vou sentir que cumpri o meu dever quando vir a situação das bolsas normalizada», diz ao PortugalDiário, acrescentando que «nem sequer estou contente por saber que vou agora receber os três meses de bolsas em atraso, porque sei que vai tudo continuar na mesma e os atrasos vão repetir-se».

Alguns dos colegas que se juntaram para receber João, envergando faixas e cartazes de protesto contra a condição dos bolseiros em Portugal, estão na mesma situação que o «ciclista». Mas nem todos querem dar a cara, com «medo das represálias».

É o caso de uma das colegas de João Freire que também faz investigação sobre pinheiros na Estação Florestal Nacional. É bolseira há dez anos, tem o pagamento da bolsa em atraso e garante ao PortugalDiário que «a situação é recorrente. Repete-se todos os anos».

Também Hélène Oliveira faz investigação na Estação Florestal Nacional, desde Outubro de 2005. E também ela não vê o dinheiro da bolsa há meses. «A última vez que recebi foi em Janeiro. E já antes fiquei meses à espera do pagamento». O que lhe vale é a ajuda dos pais porque, neste momento, paga para trabalhar.

«O Governo diz que quer apostar na ciência e na investigação científica. Mas depois o que se vê é situações como estas», acusa João Ferreira, membro da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC).

O bolseiro acrescenta que «não pode haver uma aposta séria na ciência se não há uma aposta nas pessoas que trabalham nela», apontando a precariedade das condições dos investigadores que trabalham com bolsas e «não têm direito a segurança social, férias, subsídios e nem sequer regalias em situações de maternidade».

Não eram muitos, mas marcaram presença e fizeram passar a sua mensagem. «Precariedade não, emprego científico sim!» e «Bolsa, já! E emprego científico, onde está?» foram as palavras de ordem.